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Privacidade Protege Pessoas Que Incomodam [pt-BR]

Este post é uma tradução do artigo publicado recentemente pelo Martin Fowler. O original está aqui.
Uma das consequências da história recente sobre Edward Snowden é uma discussão intensa sobre a importância da privacidade - em particular quando ou se a privacidade deve ser negociada como moeda no combate ao terrorismo. Para pensar sobre isso, precisamos entender porque a privacidade das pessoas é importante para a democracia. Muitas vezes ouvimos declarações como “não tenho nada a esconder”, ou como um amigo meu colocou: “a NSA não se importa com as pessoas insignificantes como você ou eu”. Eu posso cuidar da minha privacidade, mas será que deve o meu desejo pessoal se sobrepor às necessidades da nossa sociedade em geral? Para muitas pessoas, a privacidade é um direito fundamental - não vêem razão pela qual o governo deve se intrometer nos seus assuntos sem uma razão bem mais específica do que uma busca generalizada por possível terrorismo. Mas, mesmo se você não compartilha o desejo de preservar um pouco sua privacidade dos agentes do governo, você ainda deveria estar preocupado com a privacidade dos outros cidadãos. Isto é porque não é sobre mim, ou meu amigo. O valor da privacidade para nós não é principalmente sobre a nossa privacidade, mas sobre aqueles que desempenham um papel mais ativo na operação de um sistema democrático de governo. Essa atividade envolve muitas vezes incomodar as pessoas que têm poder, e aqueles com poder são propensos a usar o seu poder para suprimir aos que os incomodam. Mas, sem todo esse incômodo, a democracia padece. Alguns exemplos concretos devem tornar isso mais fácil de ver. O primeiro é o de jornalistas. O jornalismo é uma profissão que, em si, está visivelmente suspeita sob a lei de Sturgeon, mas a frivolidade e descrédito que mancha muito jornalismo não invalida o bom jornalismo quando ele acontece. O bom jornalismo está a ajudar-nos a entender o que está acontecendo no mundo, e tal jornalismo exige muitas vezes fazer perguntas difíceis a quem está no poder, e cavar muito para encontrar as verdades que os poderosos preferem permanecer ocultas. Tal escavação causa uma preocupação considerável a quem está no poder, especialmente quando expõe a corrupção ou incompetência. Um segundo exemplo é o de ativistas que estão tentando mudar nossa sociedade. Esses ativistas, por sua natureza, estão muitas vezes tentando mudar hábitos de comportamento aceitos. Eles podem estar clamando por direitos dos homossexuais, ou contra o aborto, ou contra a agricultura industrial. Seus protestos e campanhas, muitas vezes, são contra os interesses de quem está no poder, e assim, suas atividades são bastante incômodas - especialmente quando elas ganham tração. Então, vamos supor que você está no poder, e você está sendo incomodado por jornalistas e ativistas, e você tem acesso aos metadados sobre as ligações telefônicas de todo mundo. Com essas informações você pode descobrir com quem seus algozes estão falando, onde as suas fontes de informação estão, quem está apoiando-os com incentivo e fundos. Você pode agir contra essas pessoas e bloquear seu apoio. Você também pode encontrar coisas sobre seus atormentadores e seus apoiadores que podem ser usadas para desacreditá-las. Um ativista em favor dos direitos dos homossexuais é propenso a conhecer muitas pessoas gays, muitas vezes em lugares onde a homossexualidade é considerada abominável. Essa é uma vulnerabilidade que você pode explorar. Além disso, seus algozes não são susceptíveis a ser santos, já que a maioria das pessoas guarda algo que pode soar mal, especialmente quando você pode usar da sua influência para ampliar a distorção dos fatos. O abuso de drogas de um jornalista pode não impedi-lo de expor a corrupção, mas você pode usá-lo para sabotar seus esforços. Eu não estou dizendo que a privacidade é uma necessidade absoluta. Frustrar atividades criminais muitas vezes significa violar privacidade - um banco de dados de chamadas telefônicas pode ser uma ferramenta útil para investigar uma rede criminosa. Mas devemos também estar cientes de que tais ferramentas estão sempre susceptíveis a utilização indevida e, portanto, temos de garantir que discutir como projetar controles que reduzam esse desvio ao mínimo possível. Eu não sou um jornalista engajado, nem ativista, então por que deveria me preocupar com tudo isso? Sem bons jornalistas não consigo entender o que está realmente está acontecendo e, portanto, meu voto fica menos significativo. Corrupção florescente sufoca a atividade econômica e do progresso. Ativistas que parecem estar distantes agora podem nos levar a mudanças que serão auto-evidentes em algumas gerações (houve assédio considerável àqueles que lutaram contra a escravidão ou a favor do sufrágio feminino, por exemplo). Em suma, se não podemos proteger a privacidade das pessoas que incomodam os poderosos, perderemos um pilar vital de nossa sociedade democrática.